Antes de comecar, uma pergunta
Voce ja parou pra pensar que existe um aplicativo que te faz aplicar um filtro numa foto antes de mostrar pra alguem, so pra parecer um pouco melhor do que a realidade
Voce viaja e a primeira coisa que pensa e onde vai ficar boa a foto. Voce come num restaurante bonito e fotografa o prato antes de provar. Voce assiste um video de quinze segundos e, sem perceber, ja se passaram vinte minutos rolando mais videos parecidos. Nenhuma dessas acoes parece grande coisa sozinha. Mas juntas elas formam um habito, e esse habito tem um nome. Instagram.
Essa nao e so a historia de mais um aplicativo de fotos. E a historia de dois formados em Stanford que passaram meses construindo um aplicativo cheio de funcoes que ninguem usava direito, ate perceberem que a unica coisa que as pessoas realmente queriam fazer ali dentro era uma coisa simples. Compartilhar uma foto bonita.
O que aconteceu depois disso muda de escala tantas vezes que fica dificil de acompanhar. Um aplicativo de fim de semana virou um fenomeno mundial em semanas. Um fenomeno mundial virou a compra mais inteligente da historia de uma das maiores empresas de tecnologia do planeta.
Mas toda historia grande comeca pequena. E essa comeca com um aplicativo tao complicado que nem os proprios criadores conseguiam explicar direito o que ele fazia.
Essa e a historia de como simplificar uma ideia complicada, cortando quase tudo e deixando so o essencial, terminou criando uma das linguagens visuais mais poderosas ja construidas na internet.
O aplicativo complicado demais
Em que um engenheiro cria um aplicativo cheio de funcoes que ninguem usa direito, ate descobrir, olhando pros proprios dados, qual era a unica coisa que realmente importava
O bilhao de dolares
Em que um aplicativo com pouco mais de uma duzia de funcionarios chama a atencao de um dos homens mais poderosos do Vale do Silicio
A copia que salvou a empresa, e a saida dos fundadores
Em que o Instagram copia um concorrente pequeno pra sobreviver, os fundadores originais deixam a empresa, e uma nova era comeca sob um comando diferente
Um nome que vinha de uma bebida
A cena comeca com Kevin Systrom, formado em Stanford, que ja tinha passado dois anos trabalhando no Google em produtos como o Gmail antes de se mudar pra uma startup de viagens chamada Nextstop. Nas noites e fins de semana, ele mexia num projeto pessoal.
O nome desse projeto era Burbn, uma referencia direta a paixao de Systrom por bourbons finos. A ideia era um aplicativo baseado em localizacao, inspirado no sucesso que o Foursquare vivia naquele momento. As pessoas podiam fazer check-in em lugares, postar planos, ganhar pontos por sair com amigos, e, entre tantas outras coisas, tambem compartilhar fotos.
Em uma festa no Vale do Silicio, no comeco de 2010, Systrom apresentou o prototipo pra investidores. Em duas semanas, ele fechou uma rodada inicial de quinhentos mil dolares, dinheiro suficiente pra largar o emprego fixo e se dedicar ao projeto em tempo integral.
O problema era que o Burbn tinha funcoes demais, telas demais, e foco de menos. Um aplicativo tentando ser tantas coisas ao mesmo tempo que acabava nao sendo realmente bom em nenhuma delas.
Dois formados na mesma universidade que nunca tinham se conhecido
Enquanto ainda testava o Burbn, Systrom conheceu Mike Krieger, um brasileiro nascido em Sao Paulo que tambem tinha se formado em Stanford. Curiosamente, os dois nunca tinham se cruzado durante a faculdade, mesmo tendo passado pelo mesmo programa de formacao de empreendedores, o Mayfield Fellows, com poucos anos de diferenca entre as turmas.
Krieger era um usuario entusiasmado do proprio Burbn, e trabalhava como engenheiro numa plataforma social chamada Meebo. Systrom o convidou pra se juntar ao projeto, e em marco de 2010 os dois comecaram a trabalhar juntos.
Quase imediatamente, os dois chegaram a mesma conclusao. O Burbn tinha um defeito grave. Era complicado demais, com telas e funcoes demais, e foco de menos em qualquer coisa especifica.
Em vez de continuar adicionando funcoes, os dois fizeram algo raro no mundo das startups. Olharam pros proprios dados de uso e perguntaram, honestamente, o que as pessoas realmente estavam fazendo ali dentro.
A foto que a namorada nao quis compartilhar
Aqui esta um detalhe que poucas pessoas conhecem. A ideia central do Instagram nasceu numa viagem de ferias de Systrom com a entao namorada, no Mexico. Ele estava pensando em adicionar a funcao de compartilhar fotos ao Burbn, e mostrou uma foto tirada com o celular pra ela.
A resposta dela foi direta. As fotos do iPhone dela nao eram boas o suficiente pra serem compartilhadas com qualquer pessoa. A qualidade das cameras de celular naquela epoca ainda deixava a desejar, e ninguem queria postar uma foto borrada ou mal iluminada.
A solucao de Systrom foi simples e genial ao mesmo tempo. Aplicar filtros diretamente na foto, tornando qualquer imagem tirada de celular instantaneamente mais bonita. Esse recurso, que parecia um pequeno detalhe estetico, se tornaria rapidamente o principal motivo de as pessoas usarem o aplicativo.
Vendo que os usuarios do Burbn se engajavam muito mais com fotos e filtros do que com qualquer outra funcao, Systrom e Krieger tomaram uma decisao radical. Cortar quase tudo. Deixar so o essencial. Nascia dali um novo nome, juntando as palavras instantaneo e telegrama. Instagram.
Vinte e cinco mil pessoas em vinte e quatro horas
Pouco depois da meia noite de seis de outubro de 2010, Kevin Systrom entrou no painel de controle da loja de aplicativos da Apple e apertou o botao de publicar. Aqui vamos nos, pensou ele naquele momento.
A reacao foi quase imediata. Nas primeiras vinte e quatro horas, cerca de vinte e cinco mil pessoas baixaram o aplicativo. Em dezembro do mesmo ano, apenas dois meses depois do lancamento, o Instagram ultrapassou a marca de um milhao de usuarios cadastrados.
Pra um comeco com oitenta usuarios, esse e um grande marco, escreveu Systrom no blog da empresa na epoca. Mal sabiamos que, dentro de poucas semanas, veriamos mais imagens do mundo inteiro do que poderiamos ter imaginado.
Em janeiro de 2011, o Instagram adicionou as hashtags, ajudando usuarios a descobrirem fotos e outras pessoas por temas e interesses em comum. Em fevereiro do mesmo ano, a empresa levantou sete milhoes de dolares numa rodada de investimento serie A. Em junho, ja passava de cinco milhoes de usuarios ativos mensais. Em setembro, chegava a dez milhoes.
A propria Apple reconhecendo o fenomeno
O crescimento do Instagram continuava acelerado, e no fim de 2011 aconteceu um reconhecimento simbolico importante. A propria Apple escolheu o Instagram como o Aplicativo do Ano, um selo de validacao que poucos aplicativos tao jovens conseguiam alcancar.
Em abril de 2012, o aplicativo finalmente chegou tambem pra usuarios de Android, ate entao restrito apenas ao sistema da Apple. No primeiro dia disponivel pra Android, o Instagram foi baixado mais de um milhao de vezes, um numero que deixou claro o tamanho da demanda represada por uma versao do aplicativo fora do universo iPhone.
Um aplicativo que tinha comecado como um experimento de fim de semana, cheio de funcoes demais e foco de menos, agora era o fenomeno de fotografia mais comentado da internet, com uma equipe de pouco mais de uma duzia de pessoas cuidando de tudo.
A compra que parecia loucura, e depois virou genialidade
Apenas alguns dias depois do lancamento pra Android, veio o anuncio que mudaria pra sempre a trajetoria da empresa. O Facebook anunciou a compra do Instagram por cerca de um bilhao de dolares, em dinheiro e acoes.
Na epoca, o valor pareceu escandaloso pra muita gente. Um bilhao de dolares por um aplicativo que tinha pouco mais de uma duzia de funcionarios e nenhuma fonte de receita real ainda. Analistas e jornalistas questionaram publicamente se aquilo fazia sentido financeiro.
Anos depois, um email interno de Mark Zuckerberg viria a publico durante um processo judicial, revelando a logica real por tras da compra. Uma forma de olhar pra isso e que estamos comprando tempo, escreveu ele. A compra do Instagram garantiria um ano ou mais de vantagem antes que qualquer concorrente conseguisse chegar perto daquela escala de novo.
O tempo provaria que a jogada, questionada na epoca, se tornaria uma das aquisicoes mais lucrativas da historia inteira da tecnologia, multiplicando o valor investido dezenas de vezes ao longo dos anos seguintes.
Transformando fotos bonitas em dinheiro de verdade
Depois da compra, chegou a hora de transformar todo aquele engajamento visual em receita real. Em novembro de 2013, o Instagram introduziu publicidade dentro do proprio feed, permitindo que marcas pagassem pra aparecer entre as fotos dos amigos e pessoas que cada usuario seguia.
No mesmo mes, veio o Instagram Direct, um sistema de mensagens privadas entre usuarios, tirando o aplicativo do papel de simples vitrine publica e dando espaco pra conversas privadas tambem acontecerem ali dentro.
A publicidade dentro de um feed de fotos bonitas era um territorio delicado. Marcas demais, de forma invasiva, poderiam destruir a experiencia que tinha feito o aplicativo crescer tao rapido. O Instagram apostou num formato discreto, integrado visualmente ao restante do conteudo, e a aposta funcionou.
Copiar rapido, copiar bem
Em agosto de 2016, o Instagram lancou uma funcao chamada Stories. Fotos e videos que ficavam disponiveis por apenas vinte e quatro horas antes de desaparecerem. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com o mundo das redes sociais reconheceria imediatamente de onde tinha vindo aquela ideia. Do Snapchat.
O Instagram nao escondeu a inspiracao. Simplesmente executou a ideia com uma base de usuarios muito maior, integracao mais suave, e recursos adicionais que o proprio Snapchat ainda nao tinha construido direito.
Em apenas dois meses depois do lancamento, o Stories do Instagram ja passava de cem milhoes de usuarios ativos diarios, um marco que o proprio Snapchat tinha levado anos pra alcancar com o formato original. O golpe foi tao certeiro que praticamente paralisou o crescimento do concorrente que tinha inventado o formato.
Foi uma das jogadas mais agressivas e bem sucedidas da historia das redes sociais. Nao inventar algo do zero, mas reconhecer rapido uma boa ideia alheia e executa-la em escala maior antes que o criador original conseguisse se defender.
A saida silenciosa que ninguem esperava
Em setembro de 2018, Kevin Systrom e Mike Krieger anunciaram, sem dar muitos detalhes publicos, que estavam deixando a empresa que tinham fundado oito anos antes. Fontes proximas relataram tensoes crescentes com Mark Zuckerberg, envolvendo cada vez menos autonomia sobre decisoes de produto conforme o Instagram crescia dentro da estrutura do Facebook.
A saida pegou o mercado de surpresa. Diferente de outras aquisicoes de tecnologia que terminam em conflito aberto e publico, os fundadores optaram por uma saida discreta, sem detalhar publicamente os motivos exatos da fricao.
Em primeiro de outubro de 2018, Adam Mosseri, um veterano de dez anos de casa que tinha liderado o News Feed do proprio Facebook, foi anunciado como o novo chefe do Instagram. Estamos empolgados em passar o comando pra um lider de produto com forte formacao em design e foco em simplicidade, escreveram os fundadores na despedida.
Comecava ali uma nova era do Instagram, agora sem os dois nomes que tinham criado o aplicativo do zero, mas com uma base de usuarios gigantesca e uma cultura de produto que continuaria evoluindo sob nova lideranca.
A mesma jogada, um novo concorrente
Assim como aconteceu com o Snapchat em 2016, uma nova ameaca surgiu no horizonte alguns anos depois. Um aplicativo chines de videos curtos chamado TikTok comecou a crescer numa velocidade impressionante, especialmente entre usuarios mais jovens.
A resposta do Instagram seguiu o mesmo manual que tinha funcionado contra o Snapchat. Em novembro de 2020, a empresa lancou o Reels, um formato de videos curtos praticamente identico ao TikTok, integrado diretamente dentro do aplicativo que ja tinha bilhoes de usuarios cadastrados.
A estrategia de copiar rapido e executar em escala maior, que ja tinha funcionado uma vez contra o Snapchat, se repetiu quase da mesma forma contra o TikTok. Nao era mais coincidencia. Tinha virado, literalmente, o manual de sobrevivencia competitiva da empresa.
Mais de tres bilhoes de pessoas por mes
Hoje, o Instagram ultrapassa a marca de tres bilhoes de usuarios ativos mensais, um numero que representa uma fatia enorme da populacao mundial conectada. O aplicativo que comecou com fotos e filtros hoje inclui videos curtos, transmissoes ao vivo, compras dentro do proprio app, mensagens privadas e uma infinidade de outras funcoes que ultrapassam de longe a ideia original.
O algoritmo que decide o que cada pessoa ve na tela hoje leva em conta sinais como tempo assistido, quantas vezes um conteudo e enviado por mensagem pra outras pessoas, e curtidas em relacao ao alcance, sinais muito mais sofisticados do que o simples feed cronologico dos primeiros anos.
Dezesseis anos depois daquela viagem ao Mexico com uma foto que nao era boa o suficiente pra compartilhar, o Instagram se tornou uma das plataformas mais influentes ja construidas, moldando tendencias, carreiras inteiras de criadores de conteudo, e a forma como bilhoes de pessoas documentam a propria vida.
Traducao automatica, inteligencia artificial e a proxima reinvencao
O Instagram de hoje ja incorpora inteligencia artificial em praticamente todos os cantos do aplicativo. Traducao automatica de legendas e audio em videos, permitindo que o conteudo de um criador alcance publicos em idiomas diferentes sem esforco extra. Ferramentas que permitem resetar o historico de recomendacoes e comecar do zero, dando ao usuario mais controle sobre o que aparece na propria tela.
A empresa segue enfrentando questoes delicadas relacionadas ao impacto da plataforma na saude mental de usuarios mais jovens, um tema que segue sob investigacao e pressao regulatoria em varios paises ao redor do mundo.
Talvez essa seja a verdadeira marca registrada dessa empresa. Nao o filtro que corrige uma foto malfeita, nem os stories, nem os reels, mas a disposicao constante de reconhecer o que esta funcionando em outro lugar, aprender rapido, e reconstruir a propria experiencia antes que seja tarde demais.
De uma foto que nao era boa o suficiente a tres bilhoes de pessoas por mes
Se voce chegou ate aqui, ja percebeu que essa nao e uma historia sobre tecnologia complicada. E uma historia sobre simplificar. Sobre dois formados em Stanford que construiram um aplicativo cheio de funcoes, e so deram certo quando tiveram a humildade de cortar quase tudo e deixar so o essencial.
O primeiro grupo de usuarios dessa historia foi de oitenta pessoas, em 2010. Hoje, o aplicativo que nasceu daquele experimento de fim de semana conecta mais de tres bilhoes de pessoas todos os meses, dentro de uma das maiores empresas de tecnologia do planeta.
Mas talvez o numero mais importante nao esteja em nenhuma planilha financeira. Esta no fato de que, agora mesmo, enquanto voce termina de ler essa frase, milhoes de pessoas ao redor do mundo estao aplicando um filtro, assistindo um video de quinze segundos, ou compartilhando um momento da propria vida, sem nem perceber que fazem parte da mesma historia que comecou com uma foto tirada numa praia no Mexico, boa demais pra nao ser compartilhada.