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A real story · Meta

Meta

A jornada de um quarto de dormitorio em Harvard ate uma rede que conecta metade do planeta, e a aposta bilionaria em reinventar tudo de novo

Prólogo

Antes de comecar, uma pergunta

Voce ja parou pra pensar em quantas vezes por dia voce abre um aplicativo so pra ver o que os outros estao fazendo

Voce acorda e da uma olhada no celular. Ve uma foto de um amigo, uma mensagem no grupo da familia, um video engracado que alguem compartilhou. No cafe da manha, checa uma notificacao. No transporte, rola o feed sem nem perceber que ja se passaram vinte minutos. A noite, antes de dormir, manda uma ultima mensagem de texto. Nenhuma dessas acoes parece grande coisa sozinha. Mas juntas elas formam um padrao, e esse padrao tem um nome. Meta.

Essa nao e so a historia de uma rede social. E a historia de um estudante que criou um site pra avaliar a aparencia de colegas de faculdade, quase foi expulso por isso, e menos de duas decadas depois estava reconstruindo a propria empresa do zero pra apostar tudo em um conceito que ele mesmo admitia que so daria certo daqui a dez ou quinze anos.

O que aconteceu no meio dessas duas pontas muda de escala tantas vezes que fica dificil de acompanhar. Um dormitorio virou um escritorio. Um escritorio virou uma empresa de capital aberto. Uma empresa de capital aberto virou uma holding dona de quatro das maiores plataformas de comunicacao do planeta.

Mas toda historia grande comeca pequena, e essa comeca com um site que nem deveria ter existido.

Essa e a historia de como um projeto criado as pressas numa noite de raiva terminou conectando quase quatro bilhoes de pessoas todos os dias.

I
Primeiro ato

O dormitorio

Em que um estudante cria um site as pressas por despeito, quase e expulso da faculdade, e sem querer planta a semente de tudo que viria depois

II
Segundo ato

A ascensao

Em que a empresa sai da universidade, abre as portas pro mundo inteiro, compra os proprios concorrentes, e vira uma maquina de dinheiro global

III
Terceiro ato

A queda, a reinvencao e o novo nome

Em que a empresa enfrenta o maior escandalo da propria historia, muda de nome inteiro, aposta bilhoes num mundo virtual, e depois vira tudo pra inteligencia artificial

Cena 1 · Harvard, outono de 2003

A noite em que tudo comecou por raiva

A cena comeca numa noite comum de faculdade, so que ela nao termina de forma comum. Mark Zuckerberg, estudante de ciencia da computacao, estava chateado depois de terminar um relacionamento. Em vez de dormir, ele abriu o computador e comecou a programar.

Em poucas horas, invadindo os bancos de dados internos das residencias estudantis de Harvard pra pegar fotos dos alunos sem autorizacao nenhuma, ele criou um site chamado Facemash. A ideia era simples e polemica ao mesmo tempo. O site colocava duas fotos de estudantes lado a lado e perguntava qual dos dois era mais atraente.

O site viralizou dentro do campus quase instantaneamente. Em poucas horas, milhares de acessos derrubaram a rede interna da universidade. A administracao de Harvard nao gostou nada disso, e Zuckerberg quase foi expulso por invasao de privacidade e uso indevido de dados de outros alunos.

Ninguem imaginava naquele momento, nem mesmo a propria administracao de Harvard puxando as orelhas de um estudante de vinte anos, que aquele mesmo instinto de conectar pessoas atraves de fotos e comparacoes se tornaria, poucos meses depois, a base de uma das maiores empresas do planeta.

O Facemash foi tirado do ar. Mas a ideia que ficou martelando na cabeca de Zuckerberg era outra. E se, em vez de comparar aparencia, existisse um jeito de qualquer estudante criar um perfil proprio e se conectar de verdade com os colegas

Cena 2 · Dormitorio de Harvard, fevereiro de 2004

O nome vinha de um caderno de papel

Em quatro de fevereiro de 2004, Zuckerberg lancou um site chamado TheFacebook, direto do proprio dormitorio. O nome nao era nenhuma genialidade de marketing. Vinha das folhas de papel que as universidades distribuiam pros calouros, com foto e nome de cada aluno e funcionario, os famosos facebooks impressos que ajudavam todo mundo a se identificar no campus.

Zuckerberg nao construiu esse projeto sozinho. Ao lado dele estavam Eduardo Saverin, um estudante brasileiro que colocou quinze mil dolares do proprio bolso pra bancar os primeiros custos, Dustin Moskovitz, Andrew McCollum e Chris Hughes.

O resultado foi quase instantaneo. Em vinte e quatro horas, mil e duzentos estudantes de Harvard ja tinham criado perfil. Em um mes, mais da metade da universidade inteira estava cadastrada.

Vendo aquele crescimento absurdo dentro de um unico campus, os fundadores tiveram uma ideia obvia. Se funcionou em Harvard, por que nao expandir pra outras universidades

O site se espalhou primeiro pras universidades mais proximas, depois pra toda a chamada Ivy League, e em pouco tempo pra centenas de campus dos Estados Unidos inteiro.

Cena 3 · Tribunais e escritorios de advocacia, 2004

As acusacoes que viraram filme de Hollywood

Nem tudo era crescimento tranquilo. Poucos meses depois do lancamento, tres colegas de Harvard, os gemeos Cameron e Tyler Winklevoss e Divya Narendra, acusaram Zuckerberg de ter roubado a ideia deles. Segundo essa versao, Zuckerberg teria sido contratado pra ajudar num projeto chamado ConnectU, uma rede social parecida, e teria usado o conceito pra construir o proprio site em paralelo, em segredo.

O processo se arrastou por anos e so foi resolvido em 2008, quando o Facebook chegou a um acordo financeiro com os gemeos. A historia inteira, incluindo a briga judicial, viraria depois um dos filmes mais premiados sobre o Vale do Silicio, chamado A Rede Social, baseado no livro Os Bilionarios Acidentais.

Mas essa nao foi a unica confusao dos primeiros anos. Eduardo Saverin, o cofundador que colocou o primeiro dinheiro no projeto, acabou tendo sua participacao na empresa diluida de forma drastica depois que investidores profissionais entraram na jogada. Ele processou a empresa em 2005 e, no fim, conseguiu manter uma fatia relevante das acoes, hoje avaliada em bilhoes de dolares.

Toda historia de origem grande carrega suas brigas de bastidores. Essa carregava duas ao mesmo tempo, uma por roubo de ideia, outra por diluicao de socio.

Cena 4 · Vale do Silicio, junho de 2004

Meio milhao de dolares que comprou dez por cento de tudo

Em abril de 2004, a empresa foi formalmente registrada, e o time se mudou pra Palo Alto, no coracao do Vale do Silicio, pra passar o verao trabalhando no projeto em tempo integral. Foi ali que apareceu o primeiro grande investidor externo.

Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos investidores mais respeitados da regiao, colocou quinhentos mil dolares na empresa em troca de cerca de dez por cento de participacao. Na epoca, aquilo parecia um valor alto pra um site de estudantes universitarios. Anos depois, essa fatia valeria bilhoes.

Sean Parker, cofundador do Napster, tambem entrou na jogada, assumindo o cargo de presidente da empresa e ajudando a profissionalizar a operacao que ate ali funcionava quase como um projeto de garagem estudantil.

Zuckerberg largou Harvard de vez pra se dedicar a empresa em tempo integral, cercado de uma frase que se tornaria sua marca registrada nos anos seguintes. Mova rapido e quebre coisas.

Em agosto de 2005, a empresa comprou o dominio facebook.com por duzentos mil dolares e deixou o artigo the de lado. A partir dali, era so Facebook. No fim daquele ano, a rede ja passava de seis milhoes de usuarios.

Cena 5 · 2006

De rede fechada a rede de todo mundo

Ate 2006, o Facebook era um clube fechado. Primeiro so Harvard, depois algumas universidades selecionadas, depois estudantes de ensino medio. Mas nesse ano aconteceu a virada mais importante da historia da plataforma ate ali. Qualquer pessoa com treze anos ou mais e um endereco de email podia se cadastrar.

No mesmo ano, chegou outra novidade que dividiu opinioes na hora, mas que se tornaria essencial. O News Feed, aquele feed central mostrando o que os amigos estavam postando em tempo real. A reacao inicial dos usuarios foi de revolta. Milhares reclamaram que aquilo era invasao de privacidade, mostrando informacao demais de forma automatica.

O Facebook nao recuou. Manteve o recurso, apenas ajustou as configuracoes de privacidade. Anos depois, esse mesmo News Feed se tornaria o coracao pulsante nao so do Facebook, mas de praticamente toda rede social que viria depois dele.

Em 2007 veio o lancamento da plataforma de desenvolvedores, permitindo que empresas de fora criassem aplicativos e jogos dentro do proprio Facebook. Foi assim que jogos como fazendinhas virtuais e testes de personalidade viraram febre mundial, e o Facebook virou nao so uma rede social, mas um ecossistema inteiro.

Cena 6 · 2008 a 2009

Um botao pequeno que mudou a internet inteira

Em 2009, um recurso quase discreto foi adicionado a plataforma. Um botao simples, um polegar pra cima, com a palavra curtir do lado. O Like.

Parecia pouco. Era enorme. Esse botao deu ao Facebook algo que nenhuma empresa de publicidade tinha tido antes em tamanha escala. Um jeito de medir, clique por clique, o que exatamente interessava cada pessoa no planeta. Toda curtida virava um dado. Todo dado virava uma peca de um quebra cabeca gigantesco sobre comportamento humano.

Esse pequeno botao se tornaria, anos depois, a base de todo o modelo de publicidade segmentada que faria da empresa uma das maquinas de dinheiro mais eficientes da historia da internet.

Em 2008, o Facebook ja tinha ultrapassado o MySpace, ate entao a maior rede social do mundo, e se tornado a plataforma social dominante nos Estados Unidos. O crescimento nao ia parar tao cedo.

Cena 7 · Nasdaq, 18 de maio de 2012

O dia em que o mundo pode comprar um pedaco do Facebook

Oito anos depois de sair de um dormitorio, o Facebook abriu capital na bolsa de valores. Foi uma das maiores estreias da historia da tecnologia, avaliando a empresa em cerca de cento e quatro bilhoes de dolares.

Zuckerberg tocou o sino de abertura em Wall Street usando o mesmo tipo de moletom com capuz que sempre usava no dia a dia. Nao mudou o visual nem pro dia mais importante da carreira ate ali.

Mas a estreia nao foi um conto de fadas. Nos dias seguintes, as acoes despencaram, chegando a cair quase pela metade do preco de lancamento. Investigacoes surgiram sobre se informacoes criticas tinham sido repassadas de forma desigual entre investidores grandes e pequenos antes da abertura.

Mesmo em meio a crise nas acoes, ninguem dentro da empresa parecia satisfeito em descansar sobre os louros de um IPO recorde. A cultura de mover rapido nao deu trégua nem depois de bater o proprio recorde.

O tempo provaria que a queda inicial foi apenas um solavanco. Nos anos seguintes, a acao se recuperaria e multiplicaria de valor muitas vezes.

Cena 8 · Abril de 2012

Comprar tempo, nao so um aplicativo

Pouco antes da abertura de capital, o Facebook fez um movimento que surpreendeu o mercado inteiro. Comprou o Instagram, um aplicativo de fotos com poucos funcionarios e ainda sem nenhuma fonte de receita real, por cerca de um bilhao de dolares.

Anos depois, durante um processo judicial, um email interno de Zuckerberg veio a publico e resumiu a logica por tras da compra de um jeito brutalmente honesto. Uma forma de olhar pra isso e que estamos realmente comprando tempo, escreveu ele. Mesmo que surjam novos concorrentes, comprar o Instagram, o Path, o Foursquare, agora nos da um ano ou mais pra integrar essas dinamicas antes que qualquer um chegue perto da nossa escala de novo.

Nao era so uma compra de produto. Era uma compra de vantagem competitiva, comprada antes que a ameaca crescesse demais pra ser controlada.

O tempo mostraria que essa jogada, questionada na epoca por seu preco alto pra um app tao pequeno, se tornaria uma das aquisicoes mais valiosas da historia da tecnologia.

Cena 9 · Fevereiro de 2014

O maior cheque ja assinado por um aplicativo de mensagens

Se a compra do Instagram surpreendeu o mercado, a proxima jogada deixou todo mundo de queixo caido. O Facebook anunciou a compra do WhatsApp por dezenove bilhoes de dolares, um valor astronomico pra um aplicativo que, na epoca, tinha um time minusculo e um modelo de negocio quase inexistente.

No mesmo ano, veio outra aposta ainda mais arriscada. A compra da Oculus VR, empresa de realidade virtual, por cerca de dois bilhoes de dolares. Muita gente questionou por que uma empresa de rede social estava comprando oculos de realidade virtual.

As tres compras pareciam caras demais na epoca. Hoje, o WhatsApp e usado por bilhoes de pessoas diariamente, o Instagram se tornou uma das plataformas mais lucrativas do portfolio, e a Oculus virou a base de uma aposta que, anos depois, redefiniria a propria identidade da empresa.

Analistas de fusoes e aquisicoes usam ate hoje essas compras como estudo de caso sobre como comprar lideranca de categoria antes que o mercado precifique o verdadeiro valor daquilo.

Cena 10 · 2018

O escandalo que mudou como o mundo via a empresa

Em 2018, veio a bordo o pior momento de reputacao da historia da empresa ate entao. Um denunciante revelou que dados pessoais de aproximadamente oitenta e sete milhoes de usuarios do Facebook tinham sido coletados sem consentimento, atraves de uma empresa chamada Cambridge Analytica, e usados pra tentar influenciar eleicoes em varios paises ao redor do mundo.

O caso virou manchete global. Zuckerberg foi chamado a depor no congresso americano e no parlamento europeu. A confianca do publico na plataforma despencou.

No mesmo ano, outro denunciante revelou milhares de documentos internos mostrando que certas celebridades tinham status especial na plataforma, podendo postar conteudo problematico sem as mesmas punicoes aplicadas a usuarios comuns. Os documentos tambem mostraram que a propria empresa sabia, internamente, dos efeitos negativos do Instagram na saude mental de adolescentes, especialmente relacionados a insatisfacao com o proprio corpo.

Foi o momento em que a empresa deixou de ser vista apenas como uma inovacao tecnologica e passou a ser tratada, por governos do mundo inteiro, como um poder que precisava de regras.

Cena 11 · 28 de outubro de 2021

O dia em que o Facebook deixou de ser o Facebook

No auge de uma nova onda de criticas, com documentos internos vazados que ficaram conhecidos como os Facebook Papers, Zuckerberg fez um anuncio que pegou o mercado de surpresa. A empresa inteira mudaria de nome. Nao mais Facebook Inc. Agora, Meta Platforms Inc.

Somos uma empresa que desenvolve tecnologia pra conectar, disse Zuckerberg no anuncio. Juntos, podemos finalmente colocar as pessoas no centro da nossa tecnologia.

A justificativa oficial era que o nome antigo estava colado demais a um unico produto, o aplicativo Facebook, quando a empresa ja controlava tambem Instagram, WhatsApp e uma serie de outras iniciativas. Mas o motivo real, mais estrategico, era outro. Zuckerberg estava anunciando uma aposta gigantesca no que ele chamava de metaverso.

A ideia era construir um mundo virtual imersivo, acessado por oculos de realidade virtual, onde trabalho, lazer e relacionamentos aconteceriam dentro de espacos digitais tridimensionais. O proprio Zuckerberg admitia que essa visao levaria dez ou quinze anos pra se concretizar de verdade.

O mercado reagiu com ceticismo. As acoes da empresa, que ja vinham sob pressao por causa dos escandalos anteriores, continuariam derretendo nos meses seguintes, chegando a perder mais da metade do valor em 2022.

Cena 12 · 2022 a 2023

O ano em que a festa acabou

Com as acoes despencando e o mercado inteiro questionando se a aposta no metaverso fazia sentido, 2022 se tornou o pior ano da historia da empresa em termos de valor de mercado. Bilhoes de dolares em valorizacao evaporaram em poucos meses.

A resposta veio em 2023, quando Zuckerberg anunciou publicamente o que chamou de ano da eficiencia. A empresa cortou custos de forma agressiva, demitiu milhares de funcionarios, cerca de onze mil pessoas, e reorganizou times inteiros.

A reestruturacao funcionou. As acoes se recuperaram de forma tao forte que, em pouco tempo, a empresa voltou a bater recordes de valor de mercado, provando que o mercado ainda acreditava no negocio principal de publicidade, mesmo desconfiado do metaverso.

Foi tambem nesse periodo que a empresa comecou a redirecionar boa parte da atencao, e do dinheiro, pra uma nova fronteira que estava explodindo em popularidade no mundo inteiro. A inteligencia artificial.

Cena 13 · 2023 a 2025

De construir mundos virtuais a construir cerebros artificiais

Enquanto o metaverso ainda tentava encontrar seu publico, o mundo da tecnologia foi tomado por uma nova corrida. Inteligencia artificial capaz de conversar, escrever e responder como um humano.

A Meta entrou nessa corrida com uma familia de modelos chamada Llama, disponibilizada de forma aberta pra desenvolvedores do mundo inteiro construirem em cima dela. Essa estrategia, diferente da de outras gigantes de tecnologia que mantinham seus modelos fechados, transformou o Llama num dos padroes mais usados da industria.

Em 2023 nasceu tambem o Threads, um aplicativo de textos curtos lancado como resposta direta a um concorrente que estava passando por turbulencias internas na epoca. Em poucos dias, o Threads bateu a marca de dezenas de milhoes de usuarios cadastrados, um dos lancamentos mais rapidos da historia dos aplicativos.

A empresa que ate pouco tempo antes apostava tudo em oculos de realidade virtual agora apostava, com o mesmo nivel de ambicao, em modelos de inteligencia artificial capazes de rodar dentro de todos os seus aplicativos ao mesmo tempo.

Cena 14 · 2025 a 2026

Quase quatro bilhoes de pessoas por dia

Os numeros de hoje impressionam ate quem acompanha a empresa ha anos. Em 2025, a Meta faturou cerca de duzentos e um bilhoes de dolares, um crescimento de vinte e dois por cento em relacao ao ano anterior, com lucro liquido de sessenta bilhoes e meio.

Somando Facebook, Instagram, WhatsApp e Messenger, a empresa chegou a marca de tres bilhoes e oitenta milhoes de pessoas usando pelo menos um dos aplicativos todos os dias. Um numero que representa uma fatia enorme da populacao mundial inteira conectada, de alguma forma, a mesma empresa.

Mas nem tudo sao numeros positivos. A divisao Reality Labs, responsavel pelo metaverso e pelos oculos de realidade virtual, acumulou um prejuizo operacional de dezenove bilhoes e duzentos milhoes de dolares somente em 2025. Desde a criacao dessa divisao em 2020, as perdas totais ja passam de oitenta bilhoes de dolares.

Mesmo diante de perdas bilionarias no metaverso, a empresa anunciou planos de investir entre cento e quinze e cento e trinta e cinco bilhoes de dolares em infraestrutura de inteligencia artificial somente em 2026. A aposta mudou de destino, mas o tamanho da aposta continua exatamente do mesmo jeito. Gigantesco.

Cena 15 · Tribunais dos Estados Unidos, 2020 a 2025

O julgamento que podia desmontar tudo

Assim como outras gigantes de tecnologia, a Meta passou a enfrentar processos cada vez mais serios de orgaos reguladores. O principal deles, movido pela agencia de protecao a concorrencia dos Estados Unidos, acusava a empresa de ter comprado o Instagram e o WhatsApp de forma ilegal, especificamente pra eliminar concorrentes em ascensao em vez de competir de verdade com eles.

O pedido dos reguladores era drastico. Forcar a empresa a se desfazer do Instagram e do WhatsApp, desmembrando de volta o que tinha sido construido ao longo de mais de uma decada.

O julgamento se arrastou por anos, com direito a depoimentos revelando emails internos antigos, incluindo aquele email de Zuckerberg falando sobre comprar tempo em vez de comprar produto.

Em novembro de 2025, depois de cinco anos de batalha judicial, um juiz decidiu que a Meta nao configurava um monopolio ilegal, apontando que o cenario de concorrencia tinha mudado radicalmente desde que o processo comecou, com aplicativos como o TikTok provando que a fronteira entre redes sociais diferentes tinha se tornado irrelevante.

Foi uma vitoria historica pra empresa, mas nao encerrou de vez a pressao regulatoria. Processos sobre protecao de menores e algoritmos considerados prejudiciais a saude mental de adolescentes continuam avancando em varios paises.

Cena 16 · O futuro, ainda sendo escrito

Oculos inteligentes e a proxima grande aposta

Enquanto o metaverso original perde forca como narrativa principal, a Meta redirecionou parte dessa mesma tecnologia pra um novo formato que parece ter encontrado, enfim, um publico real. Os oculos inteligentes feitos em parceria com a marca Ray-Ban, equipados com camera, audio e assistente de inteligencia artificial embutido.

A empresa demitiu mais de mil funcionarios da divisao de realidade virtual no comeco de 2026, redirecionando recursos justamente pra essa nova geracao de dispositivos vestiveis e pra infraestrutura de inteligencia artificial.

Talvez essa seja a verdadeira marca registrada dessa empresa. Nao o Facebook original, nem o Instagram, nem os oculos de realidade virtual. Mas a disposicao de admitir quando uma aposta nao funcionou do jeito esperado, e redirecionar bilhoes de dolares pra proxima, do mesmo jeito que um estudante recomecou depois de ter um site tirado do ar em 2003.

Epílogo

De um site criado por raiva a uma empresa que conecta metade do planeta

Se voce chegou ate aqui, ja percebeu que essa nao e uma historia sobre uma rede social. E uma historia sobre um estudante que aprendeu, do jeito mais dificil possivel, que conectar pessoas e ao mesmo tempo um dos maiores negocios e uma das maiores responsabilidades que existem.

O primeiro investimento serio que essa historia recebeu foi de quinhentos mil dolares, em 2004. Hoje, a empresa que nasceu daquele investimento fatura mais de duzentos bilhoes de dolares por ano e conecta quase quatro bilhoes de pessoas todos os dias.

Mas talvez o numero mais importante nao esteja em nenhuma planilha financeira. Esta no fato de que, agora mesmo, enquanto voce termina de ler essa frase, milhoes de pessoas ao redor do mundo estao mandando uma mensagem, curtindo uma foto ou ligando um video, sem nem perceber que fazem parte da mesma historia que comecou numa noite de raiva dentro de um dormitorio universitario.

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